Um grito necessário, mas sem grande espaço para o silêncio.
Mal Antebellum começa, sentimos logo que o filme quer ser grandioso e diferente, que não é confortável e não o quer ser.
Os realizadores Gerard Bush e Christopher Renz transportam-nos para os tempos da escravatura nos Estados Unidos da América, pré-Guerra Civil, na “Plantation Era”, estabelecendo o cenário através de uma lente de desconforto associado a terror.
Dão-nos um plano inicial fantástico, longo e operático, que quase nos diz: “prepara-te, isto vai ser intenso.”, só que, em vez do nos atirar de cabeça para a brutalidade da escravatura, o filme desvia o olhar nos momentos mais violentos, quase que mantendo uma distância de segurança. E é aqui que perde parte da sua força: se pretende falar de racismo estrutural, memória histórica e da “ilusão do progresso” de forma dura, então mesmo que não seja explicito, deve assumi-lo com uma execução que acompanhe o nível da sua ambição. Facilmente estabelece as vítimas e os vilões, mas num tom perdido entre duas direções diferentes.
Depois de visitar este passado do Sul dos Estados Unidos, com os campos de algodão, escravatura e sensação constante de desespero, saltamos sem aviso para o presente, onde Veronica Henley (Janelle Monáe), uma autora e ativista bem-sucedida em painéis e debates sobra raça e identidade, aparenta estar a despertar a atenção de pessoas mal-intencionadas. Ela acaba por voltar à realidade do passado, na pele de Eden, e é a partir daí que Antebellum ganha uma outra camada de mistério, na incerteza do que é real, o que é simbólico, e como as duas realidades se ligam.
Por um lado, este filme parece inspirar-se em Django Unchained (2012), num contexto de perseguição e cenas pesadas, mas sem a inigualável força de diálogos e coreografia de cena de Quentin Tarantino. Pelo outro, puxa para si a tensão de um cinema mais contemplativo, muito ao jeito da cinematografia de Manoel de Oliveira, onde a beleza estética convive com o peso do silêncio histórico. É aí que o impacto perde intensidade, quando aquilo que devia ferir a pele é transformado em alegoria, e quando os silêncios são escassos e os momentos de fala perdem a força ao ser expositivos.
O potencial que o silêncio tinha no filme seria imenso, dentro da lógica da história onde os escravos são obrigados a manter o silêncio, e isso, só por si, poderia ser uma das ferramentas mais assustadoras do filme. Imaginem a tensão de ter de comunicar só com olhares, gestos e cumplicidades construídas com essa base. O problema é que o filme não o explora. Fala demasiado, explica demasiado, quando podia deixar o peso do silêncio fazer esse trabalho e criar um universo muito mais distinto.
Em vez de confiar no seu peso natural, o filme cria camadas extra de confronto não orgânico, que servem um certo propósito narrativo, mas como se tivesse medo de não ser suficiente claro. Falta-lhe subtileza, o famoso “Show, don’t tell”. Esse excesso de dramatização acaba por fragilizar aquilo que deveria ser mais forte: a própria verdade histórica no confronto com um olhar distinto e moderno sobre a mesma.
Não basta querer juntar a crueza implacável de um 12 Years a Slave (2013) de Steve McQueen, com a exploração de temas sensíveis com mistério envolvente, diálogos inteligentes e o ritmo certeiro de Get Out (2017) de Jordan Peele. Há que ter o engenho para contar a sua narrativa original com um certo equilíbrio entre a denuncia e o entretenimento.
Na nossa própria sombra colonial e os silêncios da ditadura, como portugueses, este filme, mesmo sem querer, faz-nos olhar para esse espelho. Quantas vezes também desviamos o olhar, em vez de enfrentar as feridas mal fechadas que deixamos no mundo? Miguel Gomes consegue com Tabu (2012), mostrar esse colonialismo envolto em memórias distorcidas, com um silêncio gritante que afirma que o passado não se apaga só porque queremos.
Já com Antebellum, o muito que tem a dizer, é feito de forma demasiada direta, sem subtileza, sem deixar espaço para o espectador respirar, pensar e interpretar, entregando as perguntas e respostas de bandeja.
E por falar em interpretações, é aí que o filme ganha mais solidez com o trabalho dos seus atores.
A atriz Janelle Monáe carrega a narrativa com uma presença magnética. A sua Eden é prisioneira de um mundo com o qual não se conforma. Já a sua Veronica tem uma mesma postura de não conformismo, mas onde pode fazer uso de uma confiança e autoridade totais. Essa dualidade inesperada cria um arco que resulta porque ela lhe dá a verdade necessária, para que oscile entre fragilidade e força em mundos diferentes. É daqueles papéis em que basta um vislumbre para se sentir o peso da dor e o olhar de resistência. Ao lado dela, Dawn (Gabourey Sidibe) é uma lufada de ar fresco, ainda que breve, trazendo leveza e a humanidade que criam o equilíbrio com o pesadelo da plantação. Já Senator Denton (Eric Lange), Captain Jasper (Jack Huston) e Elizabeth (Jena Malone), no lado opressor, vestem bem a pele de vilões, embora sem grandes nuances, símbolos de uma maldade que não precisa de explicação e que facilmente reconhecemos.
E aqui voltamos ao mesmo, faltam camadas às personagens. A alegoria é tão frontal que não sobra muito espaço para arcos mais complexos, para ambiguidades morais ou zonas cinzentas. O filme prefere ser direto, dar-nos heróis e vilões claros, quando talvez ganhasse em deixar mais espaço para as personagens respirarem e para o espectador se perder nas suas contradições.
Visualmente o filme, com a sua fotografia, luz e composições de planos, dá-nos fantásticas pinturas, com tanto de belo como de assustador, mas que mesmo com pinceladas fortes, acabam por ter medo de sobrepor camadas de forma equilibrada e que deixem espaço para a intriga de quem as aprecia.
Antebellum é um filme necessário, que terá impactos diferentes dependendo do perfil social e racial em que a sua audiência se poderá enquadrar, e por isso mesmo deveria ser mais forte, mais acutilante, e mais preciso, de forma que toda a gente saísse da sala de cinema a querer falar sobre as mensagens e o que lhes despertou, ao invés da sua estética e truques narrativos.
