Cemitério Vermelho (2022)

de João Iria

Numa era atual, o subgénero da comédia de paródias e homenagens morre no cinema e ressuscita online através de serviços de streaming e de plataformas como o Youtube. Esta abertura de acesso a gargalhadas familiares, retirou a importância cinemática na criação de novas obras similares a Airplane (1980) ou Scary Movie (2000) devido às suas criativas produções instantâneas que em menos de uma semana entregam observações humorísticas com um nível de qualidade impressionante, o suficiente para “apagar” longas-metragens planeadas. À medida que a tecnologia avança, esta forma de conteúdo narrativo desvanece com o reinado dos memes na internet, onde qualquer indivíduo atinge milhões de espectadores em meros minutos. As paródias e homenagens pertencem agora ao povo.

Assim surge Francisco Lacerda com uma nova curta-metragem, abandonando temporariamente o trash horror para adicionar queijo ralado ao spaghetti western. Distante dos pénis grotescos demoníacos, mas mantendo os tomates metafóricos no seu lugar, Cemitério Vermelho é uma obra que presta homenagem aos clássicos filmes americanos realizados por italianos. Tinha de ser um homem dos Açores com uma câmara e uma equipa entusiástica para reanimar este cadáver visual, utilizando somente dois atores, um deserto limitado, sangue, gargalhadas e um ambiente espirituoso digno de receber um grunhido animado do próprio homem sem nome.

“Rolando? Estás vivo, sacana?”, pergunta José, o Caloteiro (Francisco Afonso Lopes) para a personagem de Thomas Aske Berg. No caso desta pequena comédia western, ambos os homens rapidamente revelam os seus nomes, entre disparos e vozes que não assentam os atores – uma brincadeira divertida com as famosas dobragens italianas – assassinando o mistério da imagem icónica de Eastwood, recriada no início desta história. Não há espaço para suspense, esta é uma narrativa desenvolvida por uma comunidade apaixonada pelo género, para os admiradores desse género. Lacerda e a equipa demonstram imediata consciência que a audiência possui conhecimento da procura pelo tesouro antes dos protagonistas entrarem na sua batalha por essa riqueza.

Precisamente por este motivo é que a curta-metragem se movimenta astutamente com a fluidez de um projétil, preservando o seu charme visual no suor do grão da imagem que abre as portas do bar com uma arma na mão e uma pá para cavar na outra. Sem tempo a perder. Constantes referências às clássicas obras do passado acompanhadas por performances gloriosamente divertidas desta dupla, elevam o enredo além da sua simplicidade direta. “He not only plays, he can shoot, too.”, uma famosa citação de Once Upon a Time in the West (1968) sente-se apropriada em relação a Lacerda nesta sua produção.

Cemitério Vermelho é um murro sacana servido com um shot de whiskey, num copo limpo com cuspo; contido no absurdo e grotesco comparativamente aos trabalhos anteriores do realizador, todavia, com similar prazer jovial caloroso e um sorriso aberto amigável, típico do azoresploitation. Balas, moedas e insultos confirmam a posição de Lacerda e Francisco Afonso Lopes como mestres de midnight screenings. Esse aspecto é o que diferencia esta curta-metragem de todas as paródias e homenagens online e de todos os memes construídos num instante. É o que cimenta esta peça como uma daquelas que beneficia em ser vista na majestosa tela. É um tiro certeiro.

3.5/5
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