Alice, Darling (2023)

de Sofia Pereira

Alice, Darling vem mostrar-nos o outro lado de Anna Kendrick, uma atriz que estamos habituados a ver em comédias, tal como Pitch Perfect (2012), a comédia musical mais conhecida que protagonizou. Neste filme, Alice (Anna Kendrick) vive um relacionamento abusivo com Simon (Charlie Carrick) que permeia toda à sua vida, fazendo com que se desconecte por completo dos seus amigos, mas também e, especialmente, de si mesma.

O seu sofrimento, aliás, o enclausuramento psicológico que sente devido a esta relação manifesta-se eximiamente nas cenas em que, sofregamente, cuida da sua imagem física e se revolta posteriormente: encaracola o cabelo com um modelador frente ao espelho, depila-se demasiado rápido, maquilha-se com hesitação, etc… Mas, rapidamente se isola na casa de banho e puxa o cabelo para expurgar a sua dor, o que configura tricotilomania, sem sombra de dúvidas: o distúrbio perfeito para retratar as consequências da manipulação emocional que um homem exerce no seio de um namoro. Além disso, esta clausura anímica também é notável quando fala consigo mesma de modo a perceber quais são as melhores palavras, ou seja, o que deve falar sem irritar Simon quando quer livrar-se da sua companhia.

Contudo, a densidade psíquica da personagem fica aquém do papel em questão, isto é, deveria existir uma maior profundidade emocional em Alice, necessária para executar a interpretação desta história de forma completa. Os diálogos entre ela e as amigas, Tess (Kaniehtiio Horn) e Sophie (Wunmi Mosaku), são fracos em conteúdo, quando podiam, na verdade, potenciar o enredo de Alice, Darling. Fazem-no algumas vezes, mas poucas.

O aspeto mais marcante do filme é a corporização da invasão constante do seu espaço pessoal, ao ponto da protagonista já não saber discernir o que é do seu foro próprio, nem reconhecer, distinguir a sua voz interior, que é feita por via, nomeadamente, de uma hipersexualização manipuladora perpetrada pelo seu namorado.

Alice sabe que deve priorizar-se, mas nega toda a situação que está a viver ao cuidar de si apenas a um nível exterior (pois, talvez acredite que é o único lado que consegue cuidar enquanto estiver com Simon), menosprezando o papel do seu íntimo, pois, certamente, em negação inconsciente pensa que esse trato físico pode compensar tudo aquilo que lhe falta interiormente. Aliás, é o único aspeto que ainda reconhece como seu, mas, ao longo do filme, percebemos que será cada vez mais de Simon.

Alice, Darling, ainda que nos consiga mostrar realmente o que é viver um relacionamento tóxico ao revelar-nos de forma cadenciada o medo que Alice tem por Simon, não aprofunda todas as afetações indiscriminadas deste tipo de relações como seria expetável e, sobretudo, ideal: fá-lo com a representação de alguns momentos marcantes que mostram a “obsessão” que Alice adquiriu por Simon com receio de represálias e a violação subtil do espaço da protagonista por ele, principalmente por meio das palavras, mas estas cenas não são suficientemente extensivas para caracterizarem categoricamente a toxicidade em que vivem as pessoas vítimas destas circunstâncias, por isso o guião deveria ser mais robusto neste aspeto. Ademais, a perseguição e iniquidade de Simon não são suficientes, dado que o ator também só aparece mais no final do filme como confirmação de toda a mágoa que vemos até ao momento Alice atravessar.

Ver Anna Kendrick neste papel é aliciante, mas não surpreendente, pois esta interpretação requer uma entrega ainda maior do que aquela que nos presenteia. Contudo, mostra-me que quero ver a atriz em mais papéis como este, dramáticos, porque considero esta a sua melhor interpretação. O final de Alice, Darling é belo e emocional… Deixa espaço para pensarmos sobre o caráter dos rompimentos das relações amorosas violentas: quando é que se dá a libertação definitiva? Será que existe?

3.5/5
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