Alcarràs (2022)

de Pedro Ginja

Nostalgia foi a primeira palavra que me lembrei quando o filme começou. De tempos bem mais simples, em que os verões se prolongavam por diversos meses, no interior de Portugal, de sol e muita brincadeira. Aí o tempo passava devagar e não tínhamos ideia da sorte de ser criança e dos momentos que vivíamos. Rodeados de família, rituais e, acima de tudo, das colheitas e dos animais. Tudo tão diferente do que se passava em casa, na cidade, e ao qual não dávamos o devido valor, até ao momento em que esses momentos deixavam de fazer parte das nossas vidas.

Alcarràs, segunda longa-metragem de Carla Simón, é uma co-produção Espanhola-Italiana, filmada na zona de Alcarràs na Catalunha, que acompanha uma família produtora de fruta (pêssego, mais especificamente) durante grandes mudanças na região devido ao preço do progresso. Com cada vez mais dificuldade em sustentar a família apenas com o cultivo de fruta e legumes, surgem novas oportunidades nas imediações, com a instalação de painéis solares. Mas para isso é necessário modificar todo um modo de vida, para o qual não há vontade. Surgem, por isso, divisões entre os membros da família Solé relativamente à melhor maneira de garantir a sua sobrevivência, durante a última colheita juntos.

Naturalista – o máximo possível – é o ponto que define esta produção, porque todo o elenco é composto por não profissionais, parecendo por vezes um documentário de uma família real, em pleno processo de metamorfose. Mas mais do que isso, é uma ode a uma vida natural, ligada à agricultura, cada vez mais ameaçada pelo avanço da mecanização e da eficiência económica das produções em detrimento da qualidade dos produtos. Neste caso é economicamente mais viável instalar painéis solares do que continuar a plantar pêssegos, em que cada vez as margens de lucro são menores para os produtores.

Carla Simón consegue criar um equilíbrio entre a realidade e a família Solé, com a união familiar sendo constantemente posta à prova devido ao preço do progresso e, acima de tudo, ao fim de uma maneira pessoal de fazer negócio. Acaba por ser a falta de um documento em papel que precipita o fim de uma era para a família Solé e o acordo verbal, apesar de atravessar gerações entre a família Solé e Puyol, perde qualquer valor para o mundo real.

O que torna este drama credível é mesmo um elenco talentoso que cresce com o filme e com as emoções trazidas no argumento simples mas revelador do mundo rural da Catalunha. O foco principal da narrativa de Alcarràs é claramente este núcleo familiar e o impacto devastador sobre o seu modo de vida, mas o maior destaque está no patriarca da família, Quimet (Jordi Pujol Dolcet), com a sua transformação de homem distante e desligado para um homem com as emoções à flor da pele.

Visualmente não é muito estimulante ou com uma linguagem própria que o possa distinguir de tantas outras produções ligadas ao naturalismo e ao mundo rural, mas tem outras maneiras de se sobressair. O uso da música é muito inteligente, na alternância entre composições simples, músicas populares e os hinos modernos da juventude, mas o verdadeiro “soco no estômago” acaba por vir na voz de uma criança quando canta para o avô, a sua música favorita de menino. E é, muitas vezes, através olhos das crianças do filme, que se manifesta aquela sensação de nostalgia de um mundo campesino prístino e sem influência externa, cada vez mais difícil no mundo actual, com o online sempre a espreitar mesmo no meio de um pomar de pêssegos.

Carla Simón continua, neste seu segundo filme, a privilegiar o aspecto natural na imagem e o olhar das crianças para transmitir a mensagem de um mundo que lentamente desaparece sem ninguém se aperceber. Mas mais do que isso, continua a expor as dinâmicas familiares e a riqueza emocional como forma de exprimir a sua verdade e aquilo em que acredita. Pode ser acusado de demasiado simplista no argumento e na fotografia desinspirada, mas emocionalmente faz mossa, do início ao fim.

4/5
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