A Minha Melhor Amiga Anne Frank (2022)

de Guilherme Teixeira

Realizado por Ben Sombogaart, A Minha Melhor Amiga Anne Frank (Mijn beste vriendin Anne Frank no seu título original) é um drama holandês, adquirido recentemente pela Netflix, que adapta a vida de Anne Frank (Aiko Beemsterboer) não através do diário, mas através das memórias de Hannah Goslar (Josephine Arendsen), explorando a sua amizade, sexualidade e outros aspetos da personalidade de Anne, que durante muitos anos ficaram por explorar. A história vai intercalando desde as suas aventuras por Amesterdão até ao reencontro no campo de concentração de Bergen-Belsen.

A verdadeira protagonista do filme é a Hannah Goslar e é a partir dela que vamos conhecendo um pouco daquilo que foi Anne Frank. O grande momento é mesmo esse – mostrar que Anne era uma pessoa real, com os seus defeitos e virtudes, próprias de uma adolescente que está a começar a descobrir-se, enquanto esconde um pouco da infantilidade própria de alguém daquela idade.

Porém, para além de alguns aspetos técnicos, nomeadamente a ambientação do campo de concentração de Bergen-Belsen, a humanização de Anne e alguns bons momentos aqui e ali, o filme não consegue impactar da forma pretendida, tomando algumas decisões narrativas um pouco questionáveis. Demora a estabelecer o protagonismo de Hannah, pois reconhece que apesar de contar a história da personagem titular através dos olhos da sua melhor amiga, o público só vai estar interessado em ver o filme porque se trata, efetivamente, da história de Anne Frank. 

A química entre as atrizes é bastante afetada pelo facto do filme não conseguir equilibrar os momentos baixos da relação das duas meninas, com os momentos altos. Não há problema nenhum em mostrar Anne Frank a ser um pouco idiota, mas é essencial que o público veja que são apenas os caprichos normais de duas adolescentes. Até aos minutos finais é difícil ficar convencido que elas tenham sido, de facto, as melhores amigas, pois apesar de existirem alguns bons momentos, fica claro que essa amizade é estabelecida porque as personagens assim o dizem directamente, do que propriamente por aquilo que mostram. Este ponto acaba por ser o verdadeiro calcanhar de Aquiles desta longa-metragem. Existe uma enorme dependência do filme em relação ao conhecimento prévio que o público tem que ter sobre esta história específica. O realizador falha em dar um contexto sobre o tempo em que os eventos se passam, o contexto político da Alemanha, até as dinâmicas dentro do campo de concentração são deixadas de lado, para dar lugar a um drama que se foca demasiado na relação das duas raparigas. O que não é necessariamente mau, mas acaba por retirar força à presença de Hannah e deixa em aberto a questão da necessidade de mais uma obra que explora os mesmos pontos que tantas outras adaptações exploraram.

O recurso a flashbacks também é, no mínimo, questionável, pois a narrativa acaba por depender disso para haver algum sentimento de progressividade na história. Outro ponto negativo, ligado a este, é o facto de em vários momentos, o filme perde-se em relação ao tempo a ser atribuído a algumas cenas, dando mais tempo a uma cena no campo de concentração que não tem tanta importância para a narrativa central, e noutros momentos algumas cenas poderiam tirar mais proveito dos temores de Hannah fora do campo e da própria amizade com Anne. Esta desorganização faz com que determinados momentos tenham menos força e façam com que o filme deixe a sensação de estarmos a assistir a uma compilação de cenas que não se ligam entre si de uma forma muito satisfatória.

A Minha Melhor Amiga Anne Frank, tem uma abordagem interessante à vida de Anne. Tenta explorar melhor outras facetas que durante muitos anos foram censuradas e, de uma certa forma, acaba por ser um bom ponto de partida para quem está a conhecer a vida desta rapariga, mas a forma como desenvolve a história acaba por deixar um pouco a desejar, pois propõe uma protagonista que trabalha demasiado como uma personagem secundária.

3/5
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