A Metamorfose dos Pássaros (2021)

de Rafael Félix

Já lá vão uns anos, mas lembro-me de numa certa noite em que estava acordado a horas tão tardias que, se fosse apanhado, a minha mãe iria aparecer junto à ombreira da porta, coberta no negrume da noite, e numa voz arrastada proferir as mais fatídicas palavras: “amanhã falamos”.

Felizmente, se me recordo bem, nessa noite não fui apanhado. Estava sempre desperto àquela hora porque queria ver No Reservations (2005-2012), o programa do falecido Anthony Bourdain que visitava diversas cidades e conhecia a sua gastronomia, a sua cultura e a sua história. Nessa noite, calhou as honras a Lisboa. Bourdain sentou-se numa casa de fados com, nada mais nada menos, António Lobo Antunes e na conversa há uma voz off, umas poucas linhas de texto que não devem ter ocupado mais que 10 segundos da minha vida, mas que regressaram à minha memória quase 10 anos depois enquanto mergulhava em A Metamorfose dos Pássaros de Catarina Vasconcelos. Era algo parecido com “há na alma portuguesa uma constante melancolia trazida pela nostalgia e pela saudade de tempos que já lá vão”. 

Isto veio a mim porque, tal como o filme, evocou um sentimento profundo que é tão verdadeiro como místico. Muita da história que aqui conta Vasconcelos sobre si e sobre duas gerações da sua família, num formato em partes iguais documental e abstrato, é parte de algo maior. Muito maior. É um filme que se exprime pela sensação e pela figuração de emoções em imagem e som, sobrepondo frames profundamente tocantes e simples com pensamentos soltos que divagam sobre ser criança, sobre o amor, sobre ser filho e neto, sobre a vida e a morte, sobre a natureza e sobre a saudade. Saudade de uma mãe, saudade de um marido, saudade de uma infância e saudade de uma inocência que de alguma forma ficará sempre eternizada nesta extraordinária memória marcada em película.

A narração das mais belas cartas de amor escritas pelas mãos dos avós – numa paixão separada pelo mar e pelo dever – é dilacerante pela beleza e honestidade das palavras assim como pela profunda dor provocada pela solidão imprimida a estas duas almas enamoradas separadas por milhares de quilómetros de Oceano, ainda em período de pelo Estado Novo. As imagens que acompanham estas declarações são como que reinterpretações de um lar repleto de crianças, seis mais especificamente (pai, tios e tias de Catarina Vasconcelos), que nos põem exatamente ali, naquele ponto específico no espaço e no tempo, naqueles corredores a transbordar de vida e inocência infantil, mas com aquele desconforto e dor latente perpetuada pela ausência de um pai que receia esquecer-se do aspeto dos poucos filhos a quem conhece as feições.

E por aqui segue Catarina Vasconcelos. Com detalhes diferentes mas ciclos que se repetem, de amores e desamores separados pelas circunstâncias da vida ou pelas intermitências da morte, procurando encontrar, no meio dos textos dos avós ou nas memórias do pai, um pouco de si mesma e daquilo que deixou para trás, na casa onde nasceu, nas pessoas que perdeu e no vazio provocado pela implacável passagem do tempo que lentamente vai apagando aquilo que ela tanto tenta guardar através das imagens representativas que vão preenchendo o ecrã durante estes 100 preciosos minutos.

Há inclusive um momento em A Metamorfose dos Pássaros que confronta a realidade descrita por Vasconcelos durante o documentário e de quantos pontos foram acrescentados a um conto que, neste género, se quer real, factual e honesto. Na verdade, fica claro na atitude do filme, que este não está preocupado com a exatidão da sua história, e muito mais com a honestidade emocional dele, porque se o sentimento é verdadeiro, a mente vai ocupar-se de fazer o resto. A própria Vasconcelos é absolutamente genuína com este facto quando se permite dizer no seu filme algo como “aquilo que não te lembras, inventa”.

E é isto mesmo. Esta frase pode não estar exatamente bem transposta, e aquela memória que regressou 10 anos depois envolvendo um pré-adolescente e o medo da sua mãe pode não estar factualmente correto, corroída pelo tempo ou pela mistura e fusão de lembranças, porém o sentimento e a nostalgia que fica ao lembrar daquela semi-verdade, e a emoção que vem da força dessa memória, é algo genuinamente puro.

Através da mais privada e pessoal história, Catarina Vasconcelos constrói um filme que é uma peça única e excecional sobre a particularidade irrepetível da sua família, mas que é também ao mesmo tempo um conto que de uma forma ou de outra é de todos nós: daqueles que já perderam uma mãe, daqueles que já perderam um amor efémero ou eterno, ou daqueles que, pelo caminho, se perderam também a si próprios. 

O maior dos louvores a dar A Metamorfose dos Pássaros é dizer que, sendo a saudade um sentimento tão difícil, tão implacável e tão permanente, a beleza que esta peça lhe impinge torna-o, pelo menos naquele momento, um pouco mais tolerável.

O filme teve a sua estreia no Festival Internacional de Cinema de Berlim e em Portugal no IndieLisboa em 2020. No dia 7 de Outubro de 2021 ficou disponível em várias salas espalhadas por território Luso.

5/5
4 comentários
7

Related News

4 comentários

Os Vencedores dos Prémios Sophia 2022 – Fio Condutor 19 de junho, 2022 - 08:33

[…] Melhor Argumento. Ainda assim, o grande vencedor desta noite foi a longa-metragem documental, A Metamorfose dos Pássaros (2021), que, das suas 5 nomeações, arrecadou 4 vitórias, incluindo Melhor Realização e Melhor […]

Responder
Besta rectângular 2 de janeiro, 2022 - 12:41

Extraordinariamente monocórdico. O texto pode ser bom e as imagens podem parecer pinturas mas é tudo narrado com o entusiasmo de quem, no dia de natal, é presenteado com uma mira técnica.

Responder
Besta rectângular 2 de janeiro, 2022 - 12:41

Extraordinariamente monocórdico. O texto pode ser bom e as imagens podem parecer pinturas mas é tudo narrado com o entusiasmo de quem, no dia de natal, é presenteado com uma mira técnica.

Responder
Margarida 24 de outubro, 2021 - 08:51

Extraordinário!

Responder

Responder a Besta rectângular Cancelar Resposta