A Lei de Teerão (2019)

de Pedro Ginja

O flagelo da droga é um problema a nível mundial mas no Irão atinge proporções catastróficas. Segundo números oficiais, atinge cerca de 1,2 milhões de pessoas (os números estimados são bem mais assustadores – 10 milhões); o consumo começa por volta dos 23 anos e afecta, na maioria, homens e mulheres com cerca de 30 anos. A principal razão para isto acontecer é o facto do Irão ser a principal via de trânsito do tráfico de droga, cultivada no Afeganistão, com destino final para a Europa.

A situação é de tal maneira grave que o país viu-se forçado a substituir a estratégia de prender o utilizador de droga por um tratamento de dependência com a abertura de clínicas de desintoxicação e partilha de seringas, de forma a impedir a disseminação da SIDA, que estava fora de controlo. Apesar de todo este investimento, o Irão é, atualmente, um dos poucos países do mundo com a pena de morte atribuída a traficantes de droga, mas o impacto social no país, com principal destaque para a capital, Teerão, é devastador. Famílias inteiras sucumbem a esta dependência e com ela, gerações inteiras sofrem as consequências do vício da droga. Do outro lado, a polícia trava uma batalha inglória contra uma “força” com fundos ilimitados e o poder de corromper os poucos que se atrevem a lutar.

Saeed Roustaee, na sua segunda longa-metragem, acompanha esta luta pelo controlo do tráfico de droga, nas ruas de Teerão. Com as cadeias completamente lotadas e a cidade refém dos traficantes de droga, o departamento da polícia de Teerão e o seu capitão incorruptível, Samad Majidi (Payman Maadi), procuram os principais responsáveis para os trazer à justiça. O nome Naser Khakzad (Navid Mohammadzadeh) começa a surgir mas nada se sabe acerca desta pessoa, até que uma dica encaminha Majidi na direcção certa. Quem vencerá este jogo do gato e do rato?

Metri Shesh Va Nim (título original) é mais um grande exemplo da variedade cinematográfica produzida no Irão e, acima de tudo, um atestado à sua qualidade, mesmo em géneros de cinema mais associados a Hollywood. No caso deste policial iraniano, logo desde início somos confrontados com o tremendo impacto social e familiar ligado ao tráfico e a luta, muitas vezes amoral, travada pela polícia de Teerão para combater e retirar drogas da rua, usando todas as “armas” possíveis para vencer esta guerra, sem tréguas. Por vezes, parece um filme sobre a escravatura moderna de homens e mulheres, na maneira como são tratados pelas forças policiais. Os bairros de lata ganham outro nível de pobreza e decadência humana, e as prisões apertadas são tão sufocantes que tantas vezes sentimos essa claustrofobia e ansiamos, também, a saída desse local, retratando bem o que estes homens e mulheres estão dispostos a fazer pela sua liberdade. Nem mesmo na polícia ou entre colegas a luta termina, com as lealdades a serem constantemente testadas, não deixando ninguém a salvo num sistema de justiça corrupto e assente em burocracias exageradas e arcaicas, parecendo os detidos mercadoria e nunca seres humanos prestes a serem julgados.

Tudo isto é fruto de um argumento forte que consegue comprimir dois pontos de vista totalmente opostos no mesmo filme; o ponto de vista da investigação criminal e também o do traficante responsável, mostrando o seu lado humano, sem o demonizar. Este elemento cai nos ombros de Navid Mohammadzadeh, no papel de Naser Khakzad, o homem caçado pela polícia que, apesar da sua falta de remorsos por todo o mal causado, é o coração desta história. O balanço entre esta crueldade com o seu dever familiar, de protecção dos seus e o carinho extremo pelos que ama, mesmo quando lhe custa muito caro, revela um talento imenso na construção desta personagem, cheia de contradições e tão mais humana por isso. No reverso da medalha, temos Payman Maadi, no papel de Samad Majidi, também ele um poço de complexidade, que se revela em cada cena e no que está disposto a fazer para cumprir a sua “missão”. Aparentemente incorruptível mas amoral e roçando, ele próprio, a criminalidade para levar o seu objectivo adiante, Payman é um actor com créditos já mais que firmados em A Separation (2011), capaz de elevar esta personagem dúbia, em constante mutação de acordo com os seus interesses. Mesmo no elenco secundário o talento é imenso, com destaque para a equipa policial, como Hamid (Houman Kiai) e Ashkani (Maziar Seyedi), também eles peões deste sistema corrupto, e Vahid (Yusef Khosravi) como uma criança fruto deste submundo desumano, numa cena de uma crueza dilacerante e bem reveladora do sistema judicial do Irão.

O principal responsável por esta maravilha cinematográfica é Saeed Roustaee, com a criação de uma dicotomia entre a lei e o crime, conseguindo formar o equilíbrio perfeito entre a acção, a intensidade emocional das personagens e a qualidade cinematográfica no uso da luz e do espaço, que coloca o espectador no lugar de todas aquelas vítimas e nas consequências devastadoras para o seu país, aqui representado pelas ruas, prisões e tribunais de Teerão. No final, as respostas são poucas e as dúvidas avassaladoras para uma futura resolução deste flagelo moderno do Irão, mas o impacto emocional deste filme é inegável.

4.5/5
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1 comentário

Juliana Batalha 14 de julho, 2022 - 16:59

Adorei, adorei a review. Muito minuciosa, tão verdade. Para mim, o filme foi fascinante. Um rasgo de realidade doloroso.

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